O país caiu uma posição no ranking da OMPI, mas os dados de nove edições mostram uma economia que aprendeu a transformar conhecimento em resultado. O desafio agora é sustentar esse avanço.
O Brasil ficou em 53º lugar entre 139 economias no Índice Global de Inovação (IGI) 2026, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). É uma posição abaixo de 2025 e a terceira queda seguida desde o pico de 2023, quando o país alcançou o 49º lugar.
A manchete, porém, conta só parte da história. Pelo sexto ano consecutivo, o Brasil é a única economia da América Latina e do Caribe que inova acima do esperado para o seu nível de renda. É também o único país da região que investe mais de 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. E, pela primeira vez na série recente, as empresas financiam mais da metade de todo o P&D nacional.
Analisamos as edições de 2018 a 2026 do relatório para entender o que mudou, onde o país avança e o que ainda trava a inovação brasileira.
Nove edições, uma trajetória

Entre as edições de 2019 e 2023, o Brasil subiu 17 posições e chegou ao melhor resultado em mais de uma década. Como cada edição usa dados de um a dois anos antes, a maior parte dessa subida foi registrada com informações dos anos da pandemia. O próprio relatório de 2021 mostrou que, no mundo, P&D, patentes e capital de risco continuaram crescendo em 2020, puxados por software, saúde e biotecnologia.
Desde 2023, o país perdeu quatro posições. O gráfico mostra de onde vem a queda: os resultados se mantêm perto do 50º lugar, enquanto os insumos recuam.
O Brasil entrega mais do que investe
O IGI divide a inovação em dois lados. Os insumos medem as condições que um país oferece para inovar: instituições, capital humano, infraestrutura, crédito e sofisticação das empresas. Os resultados medem o que sai desse esforço: patentes, tecnologia, produtividade, marcas e ativos intangíveis.
Nesse recorte, o Brasil tem uma trajetória clara. Nos resultados, o país saiu do 70º lugar em 2018 para o 50º em 2026, um ganho de 20 posições. Nos insumos, ficou praticamente parado entre o 56º e o 60º lugar por quase uma década e agora recuou para o 66º.
Em outras palavras, o Brasil aprendeu a fazer mais com o que tem, mas a base que sustenta a inovação não cresceu no mesmo ritmo. A queda recente no ranking geral vem desse lado, e não de uma perda de capacidade de entrega.
Onde o Brasil se destaca e onde trava
Os pontos fortes do país estão no mercado, nas marcas e no investimento empresarial em P&D. Os gargalos aparecem na formação de talentos, na ponte entre universidade e empresa e no ambiente de negócios.
| Indicador | Posição em 2026 | Leitura |
| Tamanho do mercado doméstico | 8º | Escala atrai investimento |
| Atividade de marcas | 8º | País que sabe vender e posicionar |
| Pagamentos por propriedade intelectual | 13º | Empresas absorvem tecnologia de fora |
| Capital de risco em estágio avançado | 16º | Ecossistema de startups maduro |
| Empresas que investem em P&D (3 maiores) | 23º | Subiu do 33º em 2024 |
| P&D financiado por empresas | 27º | 50,3% do total nacional |
| Financiamento a startups e scale-ups | 71º | Era 57º em 2024 |
| Colaboração universidade–empresa | 90º | Era 67º em 2018 |
| Formados em ciências e engenharia | 101º | Era 79º em 2018 |
| Ambiente de negócios | 129º | Estabilidade de políticas em 128º |
O dado mais animador é o avanço do setor privado. As empresas brasileiras financiam hoje 50,3% de todo o P&D do país, ante 43,2% na edição anterior, e o Brasil subiu dez posições no indicador que mede o investimento em P&D das suas maiores empresas desde 2024.
O mais preocupante é a base de talentos. A proporção de formados em ciências e engenharia caiu do 79º para o 101º lugar desde 2018, e a colaboração entre universidades e empresas, do 67º para o 90º. Sem gente qualificada e sem ponte com a pesquisa acadêmica, o investimento privado tende a encontrar um teto.
“O índice confirma o que vemos no dia a dia com nossos clientes: a empresa brasileira está investindo mais em P&D com recursos próprios. O que falta é escala. E escala vem de combinar esse esforço com os instrumentos que o país já oferece, como a Lei do Bem, o crédito da Finep e as linhas do BNDES”, afirma André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria.
O cenário global de 2026
No topo do ranking, pouco mudou. A Suíça lidera pelo 16º ano seguido, seguida por Suécia e Estados Unidos, e a China segue como a única economia de renda média entre as dez primeiras. O que mudou foi o destino do dinheiro: o capital de risco global cresceu cerca de 28% em 2025, para US$ 510 bilhões, e a inteligência artificial respondeu por 53% desse valor. No primeiro semestre de 2026, a fatia da IA chegou a 77%.
O tema central desta edição é a chamada deep science, as startups nascidas de pesquisa científica em áreas como ciências da vida, semicondutores, robótica, energia e novos materiais. Mais de 30 mil empresas desse tipo foram criadas no mundo desde 2000, e hoje valem juntas US$ 7,6 trilhões.
O Brasil aparece bem posicionado nesse recorte. O país tem 53 startups de deep science mapeadas, o maior número da América Latina, e esse total cresceu 96% entre 2020 e 2025. A curitibana Hilab, de diagnósticos, figura entre as startups de países de renda média com mais patentes. O ponto de atenção é o financiamento: segundo o relatório, cerca de 70% dos recursos dessas empresas no Brasil vêm exclusivamente de fontes públicas.
Na América Latina, o Chile (51º) lidera, à frente de Brasil (53º), México (65º), Uruguai (66º) e Costa Rica (70º). No ranking dos 100 maiores polos de inovação do mundo, São Paulo segue em 49º e é o único representante brasileiro. A região inteira tem apenas dois polos na lista, contra 25 da China e 20 dos Estados Unidos.
O que vem pela frente
O IGI 2026 chega às vésperas do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Para quem investe em inovação, há uma boa notícia nos programas de governo: os dois candidatos tratam pesquisa, desenvolvimento e inteligência artificial como prioridade. O plano de Lula promete a continuidade do uso estratégico do FNDCT e coloca inovação e IA no centro da política industrial. O de Flávio Bolsonaro afirma que dará “alta prioridade à pesquisa e ao desenvolvimento” e propõe levar a IA às pequenas e médias empresas.
Os principais instrumentos de fomento, como a Lei do Bem, a Finep e o BNDES, foram construídos e mantidos por governos de diferentes orientações ao longo das últimas décadas. Mudam as ênfases e os nomes dos programas, mas a base institucional tende a permanecer.
O ranking deixa claro o que o país precisa enfrentar, seja qual for o resultado das urnas: ampliar a formação de engenheiros e cientistas, aproximar universidades e empresas e dar previsibilidade ao ambiente de negócios. Para as empresas, três movimentos fazem sentido desde já:
- Mapear o P&D que já existe. Muitas empresas inovam sem registrar os projetos e deixam de usar incentivos como a Lei do Bem.
- Combinar instrumentos. Crédito, subvenção e incentivo fiscal se complementam conforme o risco e o estágio de cada projeto.
- Aproximar-se da pesquisa. Parcerias com universidades e institutos ampliam o acesso a talentos e a recursos não reembolsáveis.
O Brasil já mostrou que sabe transformar conhecimento em resultado. O próximo passo é garantir as condições para que esse avanço ganhe escala. Na Macke, acompanhamos esse cenário de perto e ajudamos as empresas a aproveitar os instrumentos de fomento à inovação disponíveis no país.
Fontes
- OMPI, Global Innovation Index, edições de 2018 a 2026 (perfis do Brasil e capítulos regionais)
- OMPI – Ranking dos 100 maiores polos de inovação 2026
- Programa de Governo dos candidatos a presidência 2026
Nota: o ano de cada edição é o de publicação; os dados se referem, em geral, a um ou dois anos antes. A OMPI recomenda cautela ao comparar edições, por mudanças de metodologia.