Em 19 de outubro de 1901, Santos Dumont contornou a Torre Eiffel e mostrou que uma ideia ousada, com método, vira resultado. Hoje, a data celebra a inovação brasileira, e o momento pede mais do que comemoração.

Em 2024, as empresas que usaram a Lei do Bem investiram R$ 51,6 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. É o maior valor da série histórica, 23% acima do ano anterior, distribuído por 4.252 empresas, 14.877 projetos e mais de 52 mil profissionais dedicados exclusivamente a P&D.
É com esse pano de fundo que o Brasil celebra hoje, 19 de outubro, o Dia Nacional da Inovação. A data é um bom pretexto para olhar para trás e entender de onde ela vem, e para frente, para onde apontam a política industrial, os instrumentos de fomento e a inteligência artificial.
Por que 19 de outubro
Na tarde de 19 de outubro de 1901, Alberto Santos Dumont decolou de Saint-Cloud, nos arredores de Paris, a bordo do Dirigível nº 6. Contornou a Torre Eiffel e voltou ao ponto de partida, cumprindo o desafio do Prêmio Deutsch: fazer o percurso em até 30 minutos. Depois de uma polêmica sobre segundos de atraso, o Aeroclube da França o declarou vencedor em 4 de novembro.
O voo virou símbolo do que entendemos por inovação. Havia um problema concreto, a dirigibilidade, e houve método, tentativa e erro: o nº 6 veio depois de cinco dirigíveis anteriores. E houve a disposição de testar em público, diante de quem duvidava.
A homenagem virou lei mais de um século depois. A Lei nº 12.193, de 14 de janeiro de 2010, tem apenas dois artigos, e o primeiro diz tudo: “Fica designado Dia da Inovação o dia 19 de outubro”. Desde então, a data entrou no calendário de universidades, empresas e órgãos públicos como um convite para medir o quanto o país avançou.
Onde o Brasil está
O retrato mais recente vem do Índice Global de Inovação 2026, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). O Brasil ficou em 53º lugar entre 139 economias, uma posição abaixo de 2025, e é o segundo da América Latina, atrás do Chile.
O dado que mais importa, porém, não é a posição geral. Pelo sexto ano seguido, o Brasil é a única economia da região que inova acima do esperado para o seu nível de renda. Nos resultados de inovação, o país está em 50º; nas condições que sustentam esse esforço, em 66º. O Brasil entrega mais do que investe.
E quem está puxando essa entrega são as empresas: pela primeira vez na série recente, elas financiam mais da metade do P&D nacional (50,3%). Amanhã, publicamos aqui no blog uma análise completa das nove últimas edições do índice.
Nova Indústria Brasil: a inovação no centro da política industrial
Lançada em 2024, a Nova Indústria Brasil (NIB) organiza a política industrial em seis missões, da agroindústria à transformação digital, com horizonte até 2033. A diferença em relação a programas anteriores está no foco: em vez de apoiar setores de forma genérica, a NIB conecta o crédito a desafios tecnológicos concretos.
Em junho de 2026, BNDES e Finep anunciaram mais R$ 140 bilhões para a política até dezembro, sendo R$ 102,5 bilhões do banco e R$ 37,5 bilhões da agência. Com isso, o total mobilizado no ciclo 2023–2026 passa de R$ 750 bilhões. A nova rodada prioriza dez segmentos, entre eles inteligência artificial, biofármacos, minerais críticos e mobilidade sustentável.
Para as empresas, isso significa uma janela concreta: recursos disponíveis, com condições diferenciadas, para projetos que se encaixam nas missões. Quem já tem um plano de investimento em tecnologia tende a encontrar ali o custo de capital mais competitivo do mercado.
Lei do Bem, Finep e BNDES: o que transforma ideia em projeto
Se a NIB define a direção, são os instrumentos de fomento que colocam os projetos de pé. O mais conhecido deles, a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), completou 20 anos em 2025 vivendo sua melhor fase. Ela permite que empresas no lucro real deduzam do IRPJ e da CSLL, além do valor investido em P&D, entre 60% e 80% adicionais desses dispêndios, podendo chegar a 100% quando há patente concedida.
Os números mais recentes do MCTI mostram o efeito multiplicador: a renúncia estimada de R$ 11,98 bilhões esteve associada a R$ 51,6 bilhões em P&D privado. Cada real de incentivo acompanhou mais de quatro reais investidos pelas empresas. A média anual de 2023 e 2024 foi quase o dobro da registrada entre 2019 e 2022.
A Lei do Bem, porém, é só uma das peças. Para tirar projetos do papel, a Finep oferece linhas de crédito reembolsável voltadas à inovação, com taxas abaixo das de mercado, prazos longos e carência compatível com o tempo de maturação de um projeto de P&D. Elas financiam desde o desenvolvimento de produtos e processos até a modernização tecnológica de plantas, e são hoje o principal canal de recursos para empresas com um plano de inovação estruturado. A agência também opera a subvenção econômica, de caráter não reembolsável, em chamadas públicas para temas específicos.
O BNDES completa o ciclo ao financiar a escala: plantas, equipamentos e a implantação do que nasceu no laboratório. Combinados conforme o estágio de cada projeto, esses instrumentos reduzem o custo e o risco de inovar de forma significativa, e boa parte das empresas que poderiam usá-los ainda não usa.
Inteligência artificial: o dirigível da nossa época
Se em 1901 a fronteira era controlar o voo, hoje ela passa pela inteligência artificial. No mundo, a IA respondeu por 53% de todo o capital de risco investido em 2025, segundo a OMPI. No Brasil, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024–2028) prevê R$ 23 bilhões em quatro anos, distribuídos em cinco eixos que vão de infraestrutura e formação de talentos à inovação empresarial. Segundo o painel oficial do MCTI, consultado em outubro de 2026, das 54 ações estruturantes, 25 já têm entregas e outras 19 foram iniciadas, com R$ 7,83 bilhões utilizados.
A IA também está entre os segmentos prioritários da nova rodada da NIB, o que abre linhas de crédito e subvenção específicas para quem desenvolve soluções na área. Projetos de IA podem ainda ser enquadrados na Lei do Bem, desde que envolvam risco tecnológico e avanço de conhecimento, e não apenas a adoção de ferramentas prontas.
Essa distinção importa. Muitas empresas já desenvolvem modelos próprios, treinam algoritmos com dados do negócio ou integram IA a processos industriais de forma inédita, sem perceber que esse esforço pode ser reconhecido e incentivado.
Inovar é um hábito, não uma data
Santos Dumont não ganhou o Prêmio Deutsch na primeira tentativa. Ganhou porque transformou cada falha em aprendizado e cada aprendizado em um novo protótipo. O Brasil de hoje vive algo parecido: as empresas investem como nunca em P&D, a política industrial voltou a apostar em tecnologia e a IA abre uma nova fronteira, mas a base de talentos e o ambiente de negócios ainda pedem avanços.
“Nunca vimos uma combinação como esta: investimento privado recorde, crédito disponível e a inteligência artificial no centro da política industrial. Ainda assim, muitas empresas fazem P&D sem saber que esse esforço pode ser reconhecido e financiado”, afirma.
Para André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke, o momento é de oportunidade.
Nesse cenário, a vantagem fica com quem se organiza. Mapear o P&D que já acontece dentro de casa, registrar os projetos e combinar incentivo fiscal, subvenção e crédito conforme o estágio de cada iniciativa são passos que fazem diferença no caixa e na competitividade.
Há 17 anos, a Macke ajuda empresas a transformar inovação em resultado, conectando seus projetos aos instrumentos de fomento disponíveis no país. Neste Dia Nacional da Inovação, o convite é olhar para dentro: o próximo voo da sua empresa pode já estar no hangar.
Fontes: