Quando inovação, ciência e comunidades trabalham juntas: as lições do manejo do pirarucu na Amazônia

Quando pensamos em inovação, é comum associá-la a tecnologias digitais, equipamentos avançados ou descobertas realizadas em grandes centros de pesquisa. No entanto, algumas das soluções mais transformadoras surgem quando diferentes formas de conhecimento são reunidas para resolver um problema real. É o que acontece no manejo sustentável do pirarucu na Amazônia, um modelo que combina pesquisa científica, experiência das comunidades ribeirinhas, conservação ambiental e geração de renda.

O pirarucu é o maior peixe de água doce com escamas do mundo, podendo alcançar até três metros de comprimento e aproximadamente 200 quilos. Além de sua importância ambiental, a espécie ocupa um papel histórico na alimentação, na cultura e na economia das populações amazônicas. Durante décadas, porém, a pesca comercial predatória reduziu drasticamente suas populações em diversas regiões.

A exploração começou a levar a espécie ao colapso a partir da década de 1960. Na década de 1990, muitos lagos já haviam sido intensamente explorados por pescadores comerciais. Em 1996, a pesca do pirarucu foi proibida no estado do Amazonas, mas a captura ilegal e as limitações da fiscalização continuaram pressionando a espécie. Anos mais tarde, pesquisadores ainda identificavam sinais de sobrepesca em mais de 90% das comunidades analisadas em determinado trecho da Amazônia.

Uma solução construída em conjunto

A recuperação começou a ganhar força quando comunidades locais, pesquisadores e órgãos públicos passaram a desenvolver uma alternativa que não dependia apenas da proibição da pesca. A proposta era permitir o uso sustentável da espécie, com regras definidas a partir do monitoramento das populações e da participação direta dos moradores.

A primeira iniciativa de manejo no Amazonas ocorreu em 1999, a partir de um modelo desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na região do Médio Solimões. Ao longo dos anos, novas iniciativas foram surgindo em diferentes áreas do estado, replicando e adaptando a experiência inicial às características de cada território.

A trajetória dessa iniciativa e seus principais marcos foram reunidos pelo Ibama na publicação 26 anos do Manejo de Pirarucu no Estado do Amazonas: aprendizados e desafios de um modelo de gestão compartilhada, que apresenta a evolução do manejo, os resultados alcançados e os desafios ainda existentes.

Segundo a publicação, o manejo do pirarucu é um modelo de gestão compartilhada de base comunitária. Por meio da organização dos grupos participantes, as comunidades protegem os ambientes aquáticos, recuperam os estoques pesqueiros e utilizam o recurso de forma sustentável.

O sistema combina conhecimento tradicional e método científico. O pirarucu possui uma característica que facilita seu monitoramento: precisa subir regularmente à superfície para respirar. Aproveitando esse comportamento, pescadores experientes e pesquisadores desenvolveram técnicas para contar os animais nos lagos, classificá-los entre juvenis e adultos e estimar quantos poderiam ser capturados sem comprometer a recuperação da população.

A contagem é realizada anualmente pelas próprias comunidades e constitui a base para o cálculo das cotas de captura. Pela regra adotada, pode ser autorizada a pesca de até 30% dos peixes adultos identificados. Os outros 70% permanecem nos ambientes aquáticos para garantir a reprodução e a manutenção dos estoques pesqueiros.

O manejo, portanto, vai muito além da pesca. Ele envolve mobilização e organização social, zoneamento e proteção dos ambientes aquáticos, contagem dos peixes, monitoramento, comercialização e avaliação dos resultados. Ao governo cabe analisar e aprovar os planos de manejo, autorizar as cotas e acompanhar a pesca, o transporte e a comercialização do pescado.

As comunidades passaram a proteger os lagos, realizar a contagem dos peixes, impedir a entrada de pescadores ilegais e participar da definição das cotas anuais. Em determinadas áreas, a captura é proibida durante quase todo o ano, sendo autorizada apenas em uma temporada específica e dentro de limites definidos para preservar a espécie.

Essa abordagem não substituiu o conhecimento das comunidades por uma metodologia externa. Ao contrário, criou uma relação de complementaridade: a experiência de quem vive no território passou a orientar a pesquisa, enquanto os dados científicos contribuíram para estabelecer regras mais seguras de uso dos recursos naturais.

A recuperação do pirarucu transformou o ecossistema

Os resultados mostram a dimensão dessa experiência. Um estudo com 83 lagos identificou uma diferença expressiva entre as áreas abertas à pesca e aquelas protegidas pelas comunidades. Nos lagos em que praticamente toda a pesca era proibida, havia, em média, mais de 300 pirarucus. Nos lagos abertos a qualquer pescador, a média era de apenas nove animais.

Nas áreas protegidas, a população de pirarucus cresceu aproximadamente 35% ao ano. Nos lagos abertos à pesca, houve redução de 7% ao ano. O efeito também alcançou outras espécies: tartarugas de água doce ficaram dez vezes mais abundantes e jacarés-açu tornaram-se doze vezes mais comuns nas áreas protegidas. Segundo os pesquisadores, o manejo provocou mudanças positivas em toda a cadeia ecológica dos ambientes monitorados.

Os dados consolidados pelo Ibama também demonstram a expansão do monitoramento. Em 2024, mais de um milhão de pirarucus foram computados nas iniciativas de manejo existentes no estado do Amazonas. O resultado reúne as contagens anuais realizadas pelos grupos responsáveis pela proteção dos ambientes aquáticos.

Esses números mostram que proteger uma espécie pode fortalecer todo o ecossistema. Ao controlar o acesso aos lagos e impedir atividades ilegais, as comunidades não preservam apenas o pirarucu. Elas também ajudam a proteger os cursos d’água, a floresta, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que sustentam esses ambientes.

Conservação que também gera renda

O modelo avançou porque a conservação passou a gerar benefícios concretos para as comunidades. Em São Raimundo, uma localidade com aproximadamente 200 moradores, a pesca anual chegou a render mais de US$ 70 mil, valor equivalente a cerca de um quarto da renda anual dos habitantes.

Parte dos recursos obtidos com a comercialização do peixe foi direcionada a melhorias coletivas. A comunidade utilizou a renda para instalar painéis solares e baterias, ampliando significativamente o período diário de fornecimento de energia. A eletricidade permitiu maior acesso à internet, aulas remotas, comunicação por satélite e melhores condições para as famílias.

Estudos citados pela Science indicaram ainda que comunidades localizadas dentro das reservas apresentavam maior acesso a escolas, eletricidade, atendimento de saúde, saneamento, internet e estruturas comerciais do que localidades próximas situadas fora das áreas protegidas. Mais da metade dos adultos das comunidades externas desejava se mudar, enquanto esse percentual era de apenas 5% entre os moradores das reservas. Embora o manejo do pirarucu não seja o único responsável por essa diferença, os pesquisadores o apontam como um fator relevante.

A atividade também fortaleceu a participação comunitária. Como a proteção, a captura, o processamento e a comercialização exigem diferentes competências, o modelo ampliou o envolvimento dos moradores. Mulheres que antes tinham participação econômica mais limitada passaram a assumir funções importantes no processamento dos peixes e na organização da produção.

Um modelo que continua se expandindo

O manejo, inicialmente desenvolvido em algumas localidades, expandiu-se para diferentes regiões do Amazonas. Mais de 400 comunidades já participam da gestão sustentável do pirarucu em importantes afluentes do Rio Amazonas. Ao longo do Rio Juruá, pesquisadores e organizações comunitárias chegaram a mobilizar 60 localidades em uma extensão de aproximadamente 800 quilômetros. Algumas são antigas participantes do programa, enquanto outras aderiram mais recentemente, depois de observar os resultados obtidos por comunidades vizinhas.

Os dados do Ibama mostram também a ampliação institucional do modelo. Em 2025, foram emitidas 79 autorizações de captura vinculadas a 46 processos de manejo existentes no Instituto, sendo que cada processo pode reunir mais de uma iniciativa comunitária.

A proteção territorial é um dos impactos menos visíveis e mais relevantes desse trabalho. Ao controlar a entrada nos sistemas de lagos, cada comunidade pode proteger, na prática, quase 33 mil hectares de áreas alagáveis e florestas contra pesca ilegal, caça e mineração. Em toda a Amazônia Ocidental, estima-se que as comunidades envolvidas no manejo estejam ajudando a proteger aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados de floresta tropical, uma área comparável ao território do Nepal.

O cálculo realizado pelos pesquisadores indica que, caso esse trabalho fosse desempenhado exclusivamente por uma agência federal de proteção ambiental, a fiscalização correspondente ao território protegido por cada comunidade poderia custar mais de US$ 300 mil por ano.

Um modelo que ainda enfrenta desafios

Apesar dos resultados, o sucesso do manejo não significa que todos os problemas tenham sido resolvidos. A presença de atividades ilegais, o aumento dos custos de transporte, o tempo dedicado à vigilância e a perda do poder de compra do pescado podem comprometer a sustentabilidade econômica do sistema.

Segundo a reportagem da Science, o preço pago pelo quilo do pirarucu permaneceu próximo de US$ 1,20, embora, considerando a inflação desde o início dos anos 2000, devesse estar em torno de US$ 3. Se a remuneração continuar insuficiente, existe o risco de que as comunidades deixem de considerar vantajoso assumir os custos e os riscos envolvidos na proteção dos lagos.

Para enfrentar esse desafio, organizações locais vêm buscando melhorar a comercialização, ampliar o acesso a mercados que valorizem a origem sustentável do produto e estruturar unidades de processamento que permitam manter uma parcela maior do valor dentro do território. Também estão sendo estudados mecanismos de remuneração pelos serviços ambientais prestados pelas comunidades.

Em 2025, o Ibama instituiu o Programa Arapaima no Amazonas, com o objetivo de fortalecer o manejo sustentável e avaliar a possibilidade de expandir a experiência para outros estados da bacia amazônica, como Acre, Amapá, Pará, Roraima e Rondônia. A iniciativa também prevê o aprimoramento dos mecanismos de controle, monitoramento, legalidade e rastreabilidade do pescado manejado.

Esses pontos são importantes porque mostram que a inovação precisa ser continuamente aperfeiçoada. Uma solução pode ser ambientalmente eficiente, mas precisa também ser social e economicamente sustentável para permanecer funcionando no longo prazo.

Inovação também nasce da capacidade de unir conhecimentos

O caso do pirarucu mostra que inovação não depende apenas da criação de uma nova tecnologia. Ela também pode acontecer quando diferentes conhecimentos, interesses e competências são organizados para solucionar um problema complexo.

O modelo reúne observação da natureza, experiência das comunidades, pesquisa científica, gestão coletiva, políticas públicas, monitoramento e desenvolvimento econômico. Nenhum desses elementos, isoladamente, explicaria os resultados alcançados. O impacto surgiu justamente da capacidade de integrá-los.

Para Angelita Nepel, sócia da Macke Consultoria e doutora em Ciências, a experiência evidencia como o método científico pode contribuir para a construção de soluções aplicáveis e duradouras.

“A inovação ganha força quando ciência e conhecimento prático caminham juntos. O manejo do pirarucu demonstra que a pesquisa científica, aliada ao monitoramento contínuo e à participação das comunidades, pode gerar resultados consistentes para a conservação ambiental, o desenvolvimento econômico e a sociedade. É um excelente exemplo de como a ciência pode ser aplicada para resolver desafios reais.”

Na avaliação de André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, o caso também demonstra a importância de estruturar iniciativas que conciliem diferentes objetivos e atores.

“Os melhores projetos de inovação normalmente reúnem diferentes competências em torno de um objetivo comum. Quando conhecimento técnico, estratégia e colaboração caminham juntos, os resultados podem gerar impacto muito além do problema inicial.”

Uma inovação com impacto duradouro

O manejo sustentável do pirarucu conseguiu aproximar objetivos que muitas vezes são apresentados como incompatíveis: conservação ambiental, geração de renda, desenvolvimento das comunidades e uso econômico dos recursos naturais.

Mais do que recuperar a população de um peixe, o modelo contribuiu para fortalecer a organização comunitária, proteger extensas áreas da floresta, melhorar a infraestrutura local e criar uma economia associada à preservação.

O pirarucu tornou-se, assim, o centro de uma transformação muito maior. Seu manejo mostra que as soluções de maior impacto nem sempre começam com uma invenção inédita. Muitas vezes, elas nascem da capacidade de observar um problema de outra forma, reunir conhecimentos que estavam separados e construir um modelo em que diferentes partes possam se beneficiar.

No fim, essa talvez seja uma das maiores lições dessa experiência: quando ciência, conhecimento local e estratégia caminham juntos, conservar também pode significar desenvolver.

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