IA e longevidade: como a ciência está transformando o futuro da saúde

O Brasil tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE. Com o envelhecimento populacional, cresce a necessidade de desenvolver tecnologias capazes de tornar a medicina mais preventiva, personalizada e precisa.

Nesse cenário, uma questão ganha relevância: a idade registrada no documento de identidade corresponde à idade real do nosso organismo?

Dois pacientes de 65 anos podem apresentar condições fisiológicas, riscos de doenças e capacidades funcionais muito diferentes. Essa distinção está no centro de uma nova fronteira da medicina: a avaliação da idade biológica com o apoio da inteligência artificial (IA).

Em comentário científico publicado em 2026 na npj Aging, revista do grupo Nature, o pesquisador Pawel Kordowitzki, da Universidade Nicolau Copérnico, na Polônia, discute as limitações da idade cronológica como indicador isolado de saúde. O autor aborda o conceito de age illusion (ilusão da idade) e defende o avanço de modelos que integrem biomarcadores moleculares e inteligência artificial para apoiar decisões clínicas mais individualizadas.

A proposta não é abandonar a idade cronológica, mas complementá-la com informações capazes de refletir o estado fisiológico de cada indivíduo.

O que mudou na ciência do envelhecimento

Durante anos, a idade cronológica foi uma das principais referências para avaliar riscos e orientar protocolos médicos. Entretanto, avanços na biologia molecular e na inteligência artificial começam a oferecer novas possibilidades.

Uma das tecnologias em desenvolvimento são os chamados relógios epigenéticos, que utilizam alterações químicas no DNA para estimar o envelhecimento biológico.

Os primeiros modelos eram predominantemente baseados em correlações entre marcadores moleculares e idade. Abordagens mais recentes, como o DamAge, buscam diferenciar alterações associadas ao dano molecular acumulado das respostas adaptativas e protetoras do organismo.

Essa distinção pode contribuir para estimativas mais relevantes do risco de doenças e para a avaliação futura de intervenções destinadas a preservar a saúde ao longo do envelhecimento.

Outra descoberta importante é que os órgãos não envelhecem necessariamente no mesmo ritmo.

Pesquisas com proteínas presentes no plasma sanguíneo indicam que diferentes sistemas do organismo apresentam trajetórias próprias de envelhecimento. O envelhecimento acelerado de órgãos e sistemas, como o cardiovascular e o nervoso central, pode estar associado a maior risco de doenças, incluindo insuficiência cardíaca e demência, mesmo antes de manifestações clínicas evidentes.

A inteligência artificial amplia o potencial dessas descobertas.

Por meio de aprendizado profundo, redes neurais em grafos e modelos multimodais, torna-se possível integrar grandes volumes de informações, como dados clínicos históricos, análises moleculares, exames de imagem, fatores ambientais e informações coletadas por dispositivos vestíveis.

O objetivo é evoluir de avaliações isoladas para um acompanhamento longitudinal do envelhecimento, permitindo identificar alterações, estimar riscos e apoiar estratégias preventivas mais personalizadas.

O que ainda falta e onde estão as oportunidades de inovação

Apesar dos avanços, a incorporação dessas tecnologias à prática clínica ainda enfrenta desafios científicos, tecnológicos e regulatórios.

O próprio artigo destaca que a mensuração precisa da idade biológica continua sendo uma questão em aberto. O envelhecimento envolve múltiplos processos, incluindo alterações metabólicas, inflamação crônica, disfunções mitocondriais, mudanças no microbioma e modificações no sistema imunológico.

Nenhum marcador isolado consegue representar integralmente essa complexidade.

Entre as principais necessidades de pesquisa e desenvolvimento estão:

  • Biomarcadores mais precisos: desenvolvimento de métodos minimamente invasivos capazes de avaliar o envelhecimento de órgãos específicos.
  • Plataformas integradas de dados: combinação de informações clínicas, genômicas, proteômicas, imagens e sensores em sistemas padronizados.
  • Modelos avançados de IA: desenvolvimento e validação de algoritmos capazes de interpretar trajetórias individuais de envelhecimento.
  • Validação clínica: estudos prospectivos para demonstrar se intervenções que modificam indicadores de idade biológica também melhoram efetivamente os resultados de saúde.
  • Governança e segurança: soluções que garantam transparência, explicabilidade dos algoritmos, privacidade e prevenção de vieses discriminatórios.

O desenvolvimento dessas tecnologias também precisa considerar diferenças relacionadas ao sexo biológico, fatores hormonais, ancestralidade genética e condições socioeconômicas, para que os modelos sejam aplicáveis a populações diversas.

Para empresas de biotecnologia, farmacêuticas, healthtechs, laboratórios e desenvolvedores de tecnologias médicas, esses desafios representam oportunidades concretas de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I).

São iniciativas que podem envolver incerteza tecnológica, equipes multidisciplinares, infraestrutura especializada, testes e validações, além de investimentos contínuos ao longo de vários anos.

É nesse contexto que os instrumentos brasileiros de incentivo à inovação podem desempenhar um papel estratégico.

Como financiar a pesquisa e o desenvolvimento em saúde no Brasil

O fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde é uma das prioridades da Nova Indústria Brasil (NIB).

A política industrial estabelece a meta de ampliar a produção nacional para atender a 70% das necessidades brasileiras de medicamentos, vacinas, equipamentos, dispositivos médicos e outras tecnologias em saúde até 2033, frente a aproximadamente 45% registrados anteriormente.

Para apoiar esse avanço, instrumentos de financiamento como os oferecidos pela Finep e pelo BNDES podem contribuir para a execução de projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico, inovação e ampliação da capacidade produtiva.

Um exemplo concreto dessa estratégia é a farmacêutica brasileira Blanver.

Em 2025, a empresa obteve R$ 220 milhões do BNDES para apoiar seu plano de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), contemplando o desenvolvimento de 19 novos medicamentos.

Em 2026, foram aprovados outros R$ 115 milhões para modernizar e ampliar a capacidade produtiva da unidade de Taboão da Serra (SP), no âmbito do Plano Brasil Soberano, além de R$ 86 milhões destinados à expansão da produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) em Indaiatuba (SP), por meio da CYG Biotech, empresa do grupo.

Ao todo, são R$ 421 milhões em financiamentos aprovados pelo BNDES, em três operações estruturadas com apoio da Macke Consultoria.

Os investimentos fortalecem a capacidade tecnológica e produtiva da Blanver, contribuindo para reduzir a dependência externa de insumos estratégicos e ampliar a oferta nacional de medicamentos.

“O caso da Blanver mostra que o financiamento público de longo prazo voltou a ser uma alavanca real para a inovação em saúde. A empresa partiu de um plano de P&D e chegou à verticalização da produção de insumos estratégicos para o SUS. A mesma lógica vale para quem está desenvolvendo diagnóstico com IA, biomarcadores ou plataformas de dados clínicos: são projetos com incerteza tecnológica, horizonte longo e alto potencial, exatamente o perfil que esses instrumentos foram criados para apoiar”, afirma André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria.

Finep, BNDES e Lei do Bem: instrumentos complementares para inovar

Empresas que desenvolvem soluções baseadas em inteligência artificial, biotecnologia e medicina de precisão podem avaliar diferentes instrumentos de apoio, conforme o estágio de desenvolvimento, a natureza das atividades e o perfil econômico-financeiro do negócio.

O financiamento reembolsável da Finep e do BNDES pode apoiar projetos estruturados de inovação, incluindo desenvolvimento tecnológico, implantação de infraestrutura de pesquisa, aquisição de equipamentos e expansão produtiva, conforme as regras e os itens financiáveis de cada linha.

No âmbito do programa Mais Inovação, determinadas modalidades oferecem condições financeiras vinculadas à Taxa Referencial (TR), além de prazos de amortização e carência que podem ser compatíveis com ciclos mais longos de desenvolvimento tecnológico.

Já a Lei do Bem constitui um instrumento complementar, permitindo que empresas tributadas pelo lucro real, desde que atendidos os requisitos legais, usufruam de incentivos fiscais relacionados aos dispêndios elegíveis em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica.

Dependendo das características do projeto, atividades como desenvolvimento experimental de algoritmos, pesquisa de biomarcadores e validação tecnológica de soluções de IA podem integrar os dispêndios incentiváveis.

A elegibilidade, entretanto, depende da efetiva caracterização das atividades de PD&I e do cumprimento das exigências legais.

A combinação adequada desses instrumentos pode ajudar as empresas a estruturar investimentos, reduzir o custo efetivo da inovação e viabilizar projetos de maior complexidade tecnológica.

O próximo passo da inovação em saúde

A medicina de longevidade de precisão ainda está em construção. Entretanto, o avanço dos biomarcadores, da inteligência artificial e da análise integrada de dados já aponta para uma transformação na forma de compreender o envelhecimento e desenvolver estratégias de prevenção.

Para a indústria da saúde, a oportunidade vai além da aplicação clínica dessas descobertas.

O desenvolvimento de plataformas digitais, algoritmos, tecnologias de diagnóstico, soluções de monitoramento e novos produtos biotecnológicos abre espaço para projetos de inovação com elevado potencial tecnológico e econômico.

Transformar esse conhecimento científico em soluções concretas exige planejamento, capacidade técnica e acesso a instrumentos adequados de financiamento.

Com 17 anos de experiência e mais de R$ 10 bilhões em projetos de inovação viabilizados, a Macke Consultoria apoia empresas na estruturação de projetos de PD&I e na captação de recursos junto às principais instituições brasileiras de fomento.

Em um setor em constante transformação, estruturar hoje os investimentos em inovação pode ser decisivo para desenvolver as tecnologias que vão transformar a saúde de amanhã.

Fontes e referências

Artigo científico
KORDOWITZKI, Pawel. The use of biological age and artificial intelligence in health care. npj Aging, v. 12, artigo 147, 2026.

Dados e políticas públicas
IBGE. Censo Demográfico 2022 — População por idade e sexo.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Nova Indústria Brasil — Missão 2: Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

Cases de financiamento — Macke Consultoria
Macke Consultoria. Blanver obtém R$ 220 milhões do BNDES com apoio da Macke.
Macke Consultoria. Blanver aprova R$ 115 milhões do BNDES com apoio da Macke.
Macke Consultoria. Blanver aprova R$ 86 milhões do BNDES com apoio da Macke.

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