Ao completar 13 anos, organização ultrapassa 4,4 mil projetos de PD&I e reforça um modelo que aproxima empresas, centros de pesquisa e prioridades da Nova Indústria Brasil

Criada em 2013, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) alcançou R$ 9,06 bilhões em investimentos acumulados em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). Nesse período, a organização apoiou 4.458 projetos e 3.066 empresas brasileiras. Desse total de empresas, 65,3% são micro e pequenas.
Os números são relevantes por si só. No entanto, ganham ainda mais destaque quando observados no atual momento da política industrial brasileira.
Com a Nova Indústria Brasil (NIB), inovação, desenvolvimento tecnológico e competitividade passaram a integrar uma agenda organizada em seis missões. As prioridades abrangem cadeias agroindustriais, saúde, transformação digital, descarbonização e tecnologias estratégicas para a soberania nacional.
Nesse cenário, a Embrapii ocupa uma posição particular. A organização aproxima a capacidade científica e tecnológica instalada no país dos desafios concretos enfrentados pela indústria.
Um modelo para aproximar ciência e indústria
Um dos desafios históricos da inovação é reduzir a distância entre o conhecimento produzido nos centros de pesquisa e sua aplicação no mercado. Isso envolve transformar ciência em novos produtos, processos e tecnologias.
O modelo da Embrapii atua justamente nessa conexão. Empresas com desafios tecnológicos podem desenvolver projetos em parceria com unidades credenciadas. Essas unidades reúnem pesquisadores, laboratórios e competências especializadas em diferentes áreas do conhecimento.
Além disso, a estrutura permite compartilhar riscos e custos do desenvolvimento tecnológico. Para isso, combina recursos da Embrapii, das empresas e das instituições de pesquisa.
Outro diferencial está na forma de acesso. No modelo tradicional, as empresas não precisam aguardar a abertura de editais específicos para contratar projetos. Assim, empresa e unidade de pesquisa podem negociar diretamente a estrutura da iniciativa.
Para Angelita Nepel, sócia da Macke Consultoria e doutora em Ciências, essa aproximação ganha ainda mais relevância em projetos de maior complexidade tecnológica.
“Um dos principais desafios da inovação é transformar conhecimento científico em aplicação industrial. Em projetos mais complexos, empresas e centros de pesquisa precisam aproximar suas competências. Essa conexão reúne conhecimento, infraestrutura e capacidade de experimentação que muitas vezes não estão disponíveis dentro de uma única organização”, avalia Nepel.
O crescimento recente da Embrapii mostra que esse modelo vem ganhando espaço. Em 2024, a organização contratou 647 projetos, que envolveram R$ 1,29 bilhão em investimentos. Já em 2025, o número chegou a 821 projetos e R$ 1,71 bilhão. Em 2026, até o momento, a organização já soma 574 projetos contratados e R$ 1,08 bilhão investido.
Além disso, ao final de 2025, a Embrapii já havia alcançado empresas de todos os estados brasileiros. Com isso, ampliou territorialmente o acesso à sua estrutura de apoio à inovação.
Da Embrapii à Nova Indústria Brasil
Essa expansão ocorre em paralelo à retomada de uma política industrial orientada por prioridades tecnológicas e produtivas.
A Nova Indústria Brasil organiza a política industrial brasileira em seis missões. Entre elas estão cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais, saúde, infraestrutura e mobilidade sustentáveis e transformação digital da indústria. A agenda também contempla bioeconomia, descarbonização, transição energética e tecnologias de interesse para soberania e defesa nacionais.
A Embrapii é um dos agentes operadores dessa política. Por meio das Missões Embrapii, a organização apoia projetos tecnológicos de maior complexidade relacionados às prioridades da NIB.
No lançamento da iniciativa, a organização destinou inicialmente R$ 190 milhões para esses projetos. Os recursos contemplaram áreas como saúde, transformação digital, bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas.
Nessa modalidade, o apoio da Embrapii pode chegar a 70% do valor do projeto. O percentual supera o limite de até 50% indicado para o modelo tradicional naquele lançamento. Dessa forma, a iniciativa direciona recursos e capacidade científica para desafios estratégicos da indústria brasileira.
Essa conexão é importante porque aproxima a política industrial da realidade das empresas. A NIB estabelece prioridades nacionais. Por sua vez, instrumentos como a Embrapii ajudam a transformar essas prioridades em projetos concretos de desenvolvimento tecnológico.
Um ecossistema mais amplo de financiamento à inovação
A Embrapii, entretanto, não atua isoladamente. A organização integra um ecossistema com diferentes mecanismos de apoio ao investimento empresarial em inovação.
Nesse contexto, BNDES, Finep e Embrapii exercem papéis distintos e, muitas vezes, complementares. A Embrapii tem forte atuação na cooperação entre empresas e instituições científicas e tecnológicas. Já BNDES e Finep oferecem instrumentos para diferentes etapas e volumes de investimento.
Esses mecanismos podem apoiar PD&I, modernização e implantação de capacidade produtiva. Portanto, empresas podem encontrar alternativas diferentes conforme as características e o estágio de cada projeto.
A própria Nova Indústria Brasil tem estimulado essa articulação. BNDES e Finep, por exemplo, participam conjuntamente de iniciativas para ampliar a infraestrutura de inovação no país. Entre elas estão ações voltadas à atração, implantação e expansão de centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Essas iniciativas também seguem as prioridades das seis missões da NIB.
Para André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, a ampliação dos instrumentos também muda a forma como as empresas podem planejar seus investimentos.
“O avanço desse ecossistema amplia os recursos disponíveis para inovação e cria novas possibilidades para estruturar projetos. Por isso, as empresas precisam avaliar como Embrapii, Finep e BNDES podem se conectar à estratégia de PD&I. Também é importante considerar os diferentes estágios de desenvolvimento e investimento”, afirma Maieski.
Mais do que identificar uma linha de financiamento, portanto, a discussão passa pela construção de uma estratégia de funding associada à própria estratégia tecnológica da empresa.
As tecnologias apontam para onde a indústria está avançando
Os projetos apoiados também ajudam a identificar algumas das transformações tecnológicas que estão chegando à indústria.
Em 2025, a Inteligência Artificial respondeu por 31% das tecnologias habilitadoras mais demandadas pelas empresas nos projetos da Embrapii. Em seguida apareceu a integração de sistemas, com 15%. Por sua vez, agroindústria e alimentos e bebidas lideraram entre as áreas que mais realizaram projetos naquele ano.
Ao mesmo tempo, a rede vem ampliando sua atuação em tecnologias de maior complexidade. Entre as competências destacadas estão tecnologias quânticas, cibersegurança, 5G e 6G, agricultura digital e eletromobilidade.
A lista também inclui insumos farmacêuticos ativos (IFAs), hidrogênio de baixa emissão e terapias e vacinas baseadas em RNA.
Esse movimento ajuda a mostrar como a política de inovação se traduz em aplicações concretas. Os investimentos influenciam as tecnologias desenvolvidas, as infraestruturas científicas disponíveis e as competências incorporadas pelas empresas brasileiras.
Do acesso ao recurso à estratégia de inovação
Os R$ 9,06 bilhões investidos em projetos apoiados pela Embrapii ajudam a dimensionar o crescimento desse ecossistema. No entanto, talvez o aspecto mais relevante esteja na aproximação entre três elementos: ciência, indústria e capital.
Historicamente, esses três componentes nem sempre avançaram juntos no Brasil. Agora, essa conexão ganha importância diante das novas transformações tecnológicas.
A competitividade depende cada vez mais de inteligência artificial, biotecnologia, novos materiais, digitalização e transição energética. Outras tecnologias de maior complexidade também entram nessa equação. Nesse cenário, o acesso ao conhecimento científico ganha uma dimensão estratégica.
Ao mesmo tempo, as empresas precisam de capacidade para desenvolver e financiar seus projetos. Portanto, acesso à ciência e acesso ao capital passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre inovação.
Para as empresas, isso também muda o ponto de partida. A pergunta deixa de ser apenas “qual recurso está disponível?”.
Antes disso, é preciso identificar quais desafios tecnológicos são estratégicos para o negócio. Também é necessário avaliar quais competências precisam ser desenvolvidas e quais parceiros podem contribuir. Por fim, a empresa precisa entender quais instrumentos são mais adequados para cada etapa.
É justamente nessa combinação entre estratégia tecnológica, parceiros, estruturação de projetos e funding que está uma das principais oportunidades. Embrapii, Finep e BNDES podem deixar de representar alternativas pontuais. Em vez disso, podem integrar uma agenda contínua de inovação.
Ao completar 13 anos, portanto, os números da Embrapii contam mais do que a trajetória de uma instituição. Eles mostram o avanço de uma infraestrutura mais ampla de inovação no país.
Para as empresas, saber navegar por esse ecossistema pode se tornar uma competência cada vez mais importante. Afinal, transformar ciência e tecnologia em competitividade exige, além de boas ideias, estratégia, parceiros e capacidade de execução.