O Boletim Focus de 31 de agosto manteve a projeção da Selic em 13,75% para o fim de 2026, abaixo dos atuais 14%. Para empresas com projetos de inovação em andamento, a leitura relevante não é apenas quanto os juros podem cair, mas como esse movimento se combina com instrumentos de financiamento que têm seu custo estruturado a partir de referências diferentes da Selic.

O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 31 de agosto manteve a projeção da Selic para o fim de 2026 em 13,75% ao ano, mesmo patamar da semana anterior. A estimativa para o IPCA recuou de 5,02% para 5,01%, enquanto a projeção do PIB foi revisada para baixo, de 1,95% para 1,92%. O câmbio permaneceu em R$ 5,20 para 2026 e R$ 5,30 para 2027.
À primeira vista, é um boletim de poucas surpresas. Mas há um dado importante por trás da estabilidade das projeções: a Selic atual, definida pelo Copom em 5 de agosto, está em 14% ao ano. A projeção de 13,75% para dezembro indica, portanto, que o mercado ainda espera algum espaço adicional para redução dos juros até o fim do ano. Além disso, o Boletim Focus já aponta esse mesmo patamar de 13,75% para setembro.
Mais do que antecipar exatamente quando ou em qual magnitude ocorrerá o próximo movimento, o Focus mostra que o mercado continua trabalhando com um cenário de flexibilização gradual da política monetária.
Um ciclo que segue gradual
Desde janeiro, quando a Selic estava em 15%, o Copom promoveu reduções sucessivas: 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho e 14% em agosto.
O Focus de 31 de agosto reforça a percepção de que esse movimento pode continuar, ainda que de forma cautelosa. Com três reuniões do Copom ainda previstas para 2026 — em setembro, novembro e dezembro — a mediana das projeções aponta para uma Selic de 13,75% ao final do ano.
A cautela tem explicação. A inflação projetada ainda permanece acima do centro da meta, e o próprio Banco Central tem sinalizado que a extensão do ciclo dependerá da evolução da inflação, da atividade econômica e das expectativas.
Ou seja: novas reduções são esperadas pelo mercado, mas o ritmo continuará condicionado aos próximos dados econômicos.
Por que isso interessa a quem estrutura projetos de PD&I
Para empresas que avaliam investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), a Selic funciona como uma importante referência de custo de oportunidade.
Quanto mais elevados os juros, maior tende a ser a pressão para que investimentos de maturação mais longa — como projetos de inovação, modernização tecnológica e desenvolvimento de novos produtos ou processos — disputem recursos com alternativas financeiras de retorno mais imediato e previsível.
Mas há um ponto importante que nem sempre aparece nessa análise: boa parte dos principais instrumentos de crédito à inovação tem seu custo financeiro estruturado a partir da Taxa Referencial (TR), e não diretamente da Selic.
No BNDES Mais Inovação e nas linhas reembolsáveis da Finep, por exemplo, a TR pode compor a formação do custo das operações, acrescida das remunerações, spreads de risco e demais condições aplicáveis a cada modalidade.
Como a TR permanece significativamente abaixo da Selic, esses instrumentos podem oferecer condições de financiamento mais favoráveis mesmo em um ambiente de juros básicos ainda elevados.
Isso significa que a redução da Selic altera o comparativo entre as alternativas disponíveis, mas não elimina a vantagem potencial dos instrumentos de fomento para projetos de longo prazo.
Na prática, isso muda a pergunta que uma empresa deveria fazer.
Em vez de esperar a Selic cair para então avaliar a viabilidade de um projeto, faz mais sentido identificar desde já qual parcela do investimento pode ser financiada por linhas de fomento referenciadas à TR e como esses recursos podem ser combinados com outros instrumentos, como a Lei do Bem.
Para André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, essa diferença ainda é frequentemente subestimada pelas empresas.
“Muita gente espera a Selic cair para começar a olhar para o crédito de fomento, mas parte relevante desses instrumentos tem seu custo estruturado a partir da TR, e não diretamente da Selic. Quando a empresa entende essa diferença, percebe que não necessariamente precisa esperar o ciclo de juros terminar para avançar com um projeto de PD&I. O trabalho é estruturar o projeto agora e combinar os instrumentos adequados.”
O que fazer com esse cenário agora
Um ciclo de redução gradual dos juros, ainda sujeito à evolução da inflação e da atividade econômica, tende a favorecer empresas que já chegam ao novo cenário com seus projetos estruturados.
Isso evita que a organização da estratégia de financiamento comece apenas quando as condições financeiras se tornarem mais favoráveis.
Projetos de inovação normalmente exigem planejamento técnico, definição de escopo, orçamento, cronograma, identificação dos investimentos elegíveis e análise das fontes de financiamento disponíveis.
Por isso, o momento de organizar a estratégia financeira de um investimento em PD&I não deveria depender exclusivamente do timing da política monetária, mas principalmente do estágio de maturidade do projeto e de sua capacidade de enquadramento nas diferentes alternativas de fomento.
Segundo Brendo Diogo Ribas, sócio da Macke Consultoria, é justamente nesse ponto que muitas empresas acabam perdendo tempo.
“Vemos empresas que aguardam o cenário macroeconômico ‘fechar’ para dar entrada em um projeto, mas a análise da Finep e do BNDES depende principalmente da qualidade técnica, do enquadramento e das condições econômico-financeiras da operação, e não de a empresa acertar exatamente o melhor momento do ciclo de juros. Quando a estruturação já está pronta, ela consegue aproveitar as oportunidades de funding conforme surgem, em vez de começar do zero depois que o cenário já mudou.”
Como a Macke pode apoiar
Na Macke Consultoria, acompanhamos o cenário macroeconômico, as condições das linhas de financiamento e as decisões de política monetária como parte da estruturação financeira e técnica dos projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) de nossos clientes.
Esse acompanhamento permite avaliar não apenas o custo do capital, mas também quais instrumentos podem ser combinados de forma mais eficiente em cada estratégia de investimento.
Finep, BNDES, Lei do Bem e outros mecanismos de incentivo podem cumprir papéis diferentes dentro de uma mesma estratégia financeira, dependendo do perfil da empresa, do projeto, do cronograma de investimentos e das condições disponíveis no momento da operação.
Se sua empresa possui projetos de inovação previstos ou investimentos tecnológicos em planejamento, fale conosco e saiba como podemos apoiá-lo.
Fontes: Banco Central do Brasil — Boletim Focus, 31 de agosto de 2026; Banco Central do Brasil — decisões e comunicados do Copom; BNDES — Programa BNDES Mais Inovação; Finep — Condições Operacionais 2026.