BNDES registra maior volume de crédito em mais de uma década: por que este é o momento de estruturar projetos

BNDES

O primeiro semestre de 2026 marcou uma forte aceleração do crédito de desenvolvimento no Brasil. Entre janeiro e junho, o BNDES desembolsou R$ 75,6 bilhões, crescimento real de 31,2% na comparação com o mesmo período de 2025 e o maior volume para um primeiro semestre desde 2015.

Mais expressivo ainda foi o avanço das aprovações. Foram R$ 111,7 bilhões no semestre, alta de 44,9% em relação ao mesmo período do ano anterior e o maior resultado para os primeiros seis meses do ano desde 2014. Aprovações antecedem os desembolsos e, segundo a própria metodologia do BNDES, funcionam como um dos indicadores da tendência futura das liberações.

Ainda assim, o movimento atual está longe dos níveis máximos já observados historicamente. As aprovações acumuladas em 12 meses correspondem hoje a cerca de 2,1% do PIB, enquanto chegaram a superar 5% em 2009, 2010 e 2012. O dado ajuda a dimensionar a recuperação recente sem confundi-la com os maiores ciclos de expansão do banco.

Para as empresas, porém, talvez a questão mais relevante não seja apenas quanto o BNDES está desembolsando, mas para quais tipos de investimento o crédito de longo prazo está sendo direcionado e quais outras fontes estão se organizando na mesma direção.

Onde os recursos estão chegando

A infraestrutura liderou os desembolsos do BNDES no primeiro semestre, com aproximadamente R$ 28,5 bilhões, ou 37,6% do total. A agropecuária aparece em seguida, com R$ 17,7 bilhões, enquanto indústria e comércio e serviços também registraram expansão.

Os números mostram uma retomada relevante do financiamento de longo prazo, mas esse movimento não acontece de forma isolada. Ele se conecta a uma política industrial mais ampla, que voltou a colocar modernização produtiva, inovação, digitalização, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico entre as prioridades nacionais.

É nesse ponto que entra a Nova Indústria Brasil (NIB).

A Nova Indústria Brasil ajuda a explicar esse novo ciclo

A NIB organiza a política industrial brasileira a partir de seis missões, que incluem cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais; o complexo econômico-industrial da saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; transformação digital da indústria; bioeconomia, descarbonização e transição energética; e tecnologias de interesse para soberania e defesa nacionais.

Mais do que estabelecer setores prioritários, a lógica da política é coordenar diferentes instrumentos — financeiros, regulatórios e de compras públicas — em torno desses desafios.

Na prática, isso ajuda a entender por que BNDES e Finep aparecem cada vez mais conectados a projetos que envolvem inovação, transformação digital, novos processos produtivos, descarbonização, saúde e desenvolvimento tecnológico.

O BNDES Mais Inovação, por exemplo, apoia investimentos em PD&I, digitalização, difusão tecnológica, plantas pioneiras e outras iniciativas relacionadas à nova política industrial. No apoio direto, o financiamento parte de R$ 10 milhões nas regiões Norte e Nordeste e de R$ 20 milhões nas demais regiões.

Mas o BNDES é apenas uma das peças desse ambiente.

Finep também oferece uma janela relevante para projetos de inovação

As condições operacionais da Finep atualizadas em julho de 2026 mostram como o crédito para inovação está sendo estruturado de forma alinhada às missões da NIB.

No financiamento reembolsável direto, são elegíveis projetos e Planos Estratégicos de Inovação (PEIs) aderentes a pelo menos uma das seis missões da política industrial. Para esse formato, a Finep estabelece, entre os requisitos econômicos, Receita Operacional Bruta de pelo menos R$ 90 milhões, financiamento a partir de R$ 30 milhões e Patrimônio Líquido superior a R$ 86 milhões.


Dentro desse universo, projetos com maior grau de inovação e relevância podem acessar a linha Finep Mais Inovação. Nas condições vigentes em julho, a taxa nominal parte de TR + 2,5% ao ano, podendo chegar a TR + 2,0% ao ano com bônus, antes dos spreads aplicáveis à operação. A linha prevê carência de até 48 meses, prazo total de até 192 meses e participação de até 90% do projeto, podendo alcançar 100% em operações enquadradas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e respectivas áreas de atuação das agências de desenvolvimento regional.

A Finep também possui linhas para projetos com diferentes níveis de maturidade. A Inovação para Competitividade contempla desenvolvimento ou aprimoramento significativo de produtos, processos ou serviços com potencial de melhorar o posicionamento competitivo da empresa. Já a Inovação para Desempenho pode apoiar iniciativas de atualização tecnológica capazes de gerar ganhos de produtividade, redução de custos ou melhora no desempenho de produtos e serviços.


Isso é importante porque mostra que o universo financiável vai além da pesquisa de fronteira. Modernização tecnológica, produtividade, digitalização e desenvolvimento de novos produtos e processos também podem fazer parte da agenda, desde que exista aderência às condições e aos critérios de cada instrumento.

Oportunidade não significa acesso automático

O aumento dos desembolsos e aprovações do BNDES e a existência de linhas atrativas da Finep não significam que qualquer investimento encontrará financiamento nas mesmas condições.

Os instrumentos possuem critérios próprios de elegibilidade, análise de crédito, aderência tecnológica, composição dos investimentos, enquadramento nas prioridades públicas e capacidade financeira da empresa.

Na Finep, por exemplo, a avaliação dos PEIs considera tanto o grau de inovação quanto a relevância da inovação, analisando aspectos como abrangência, incerteza tecnológica, composição dos dispêndios, qualificação da equipe, trajetória de inovação, relevância setorial, externalidades e internacionalização.

Ou seja: ter um projeto de investimento é diferente de ter um projeto estruturado para acessar funding.

Para André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, é justamente nesse ponto que a estratégia financeira precisa começar antes da contratação dos investimentos.

“Quando uma empresa já pretende investir em inovação, expansão ou modernização, a pergunta não deveria ser apenas quanto o projeto vai custar, mas qual é a estrutura financeira mais adequada para viabilizá-lo. Avaliar as fontes disponíveis antes de executar o investimento pode mudar significativamente a equação financeira e até a abrangência do projeto.”

Por que olhar para esse cenário agora?

O primeiro fator é o próprio volume de crédito em circulação. O BNDES encerrou o semestre com R$ 111,7 bilhões em operações aprovadas, sinalizando uma carteira relevante de investimentos em diferentes setores da economia.

O segundo é a existência de condições específicas para projetos de inovação. Enquanto o custo do capital convencional ainda pesa sobre decisões de longo prazo, instrumentos com referenciais vinculados à TR e prazos mais longos podem alterar significativamente a viabilidade financeira de determinados projetos.

O terceiro é a convergência entre as instituições. A NIB estabelece as prioridades; BNDES e Finep oferecem instrumentos capazes de financiar diferentes etapas e perfis de investimento; e outros mecanismos, como incentivos fiscais e recursos não reembolsáveis, podem complementar essa estrutura.

A própria Finep opera hoje diferentes formatos de apoio: financiamento reembolsável, recursos não reembolsáveis para ICTs, subvenção econômica a empresas, fundos de investimento e aportes de capital, entre outros instrumentos.

Na subvenção econômica, por exemplo, os recursos são concedidos para atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação sem necessidade de devolução ao órgão concedente, mediante compartilhamento do risco com a empresa e contrapartida empresarial.

O resultado é um ambiente em que a discussão deixa de ser simplesmente “existe crédito?” e passa a ser “qual combinação de instrumentos faz mais sentido para este projeto?”

Estruturar o funding antes de executar o investimento

Para uma empresa que pretende construir uma nova planta, desenvolver uma tecnologia, modernizar processos, digitalizar a produção ou ampliar capacidade de PD&I, a decisão sobre como financiar o projeto não deveria acontecer depois que os investimentos já estão contratados.

O ideal é avaliar previamente quais parcelas podem ter aderência a BNDES, Finep ou outros mecanismos, quais condições podem ser combinadas e como o projeto deve ser estruturado tecnicamente.

Isso pode influenciar desde o cronograma e a composição dos investimentos até o tamanho do projeto e o retorno esperado sobre o capital.

Para Brendo Diogo Ribas, sócio da Macke Consultoria, olhar para os diferentes mecanismos de forma integrada é um dos principais ganhos de uma estratégia de funding bem construída.

“Hoje existem instrumentos com objetivos, taxas, prazos e critérios muito diferentes. O ponto não é simplesmente encontrar o crédito mais barato, mas estruturar uma combinação coerente com o projeto e com a estratégia da empresa. Quando esse trabalho acontece antes da execução, aumentam as possibilidades de capturar as melhores condições disponíveis.”

Existe recurso. O desafio é transformar investimento em projeto financiável

Os números do BNDES mostram uma expansão relevante do crédito de desenvolvimento. As condições da Finep mostram que a inovação segue recebendo instrumentos específicos e competitivos. E a Nova Indústria Brasil fornece uma direção comum para boa parte desses recursos.

Para empresas com investimentos previstos para os próximos anos, essa combinação merece atenção.

Não porque os recursos sejam automáticos ou ilimitados, mas porque projetos que já fazem parte da estratégia da organização podem encontrar hoje alternativas de financiamento diferentes do crédito convencional.

A oportunidade começa antes da submissão a qualquer instituição: começa na leitura dos planos de investimento, na identificação dos itens financiáveis e na estruturação técnica e financeira do projeto.

Como a Macke pode apoiar

Há mais de 17 anos, a Macke Consultoria atua na estruturação de projetos e na captação de recursos para inovação, modernização e expansão de empresas de diferentes setores.

Nossa atuação envolve a análise dos planos de investimento, identificação dos instrumentos de funding mais aderentes, estruturação técnica e financeira dos projetos e acompanhamento dos processos junto a instituições como BNDES e Finep.

Em um cenário com diferentes linhas, critérios e condições, a escolha do instrumento pode ser tão importante quanto a própria decisão de investir.

Se sua empresa possui projetos previstos para os próximos anos, este pode ser um bom momento para avaliar como estruturá-los antes de definir de onde virão os recursos.


Fontes: BNDES; Finep, Condições Operacionais 2026, atualização de 20 de julho de 2026; Confederação Nacional da Indústria (CNI), Plano de Ação para a Neoindustrialização – Nova Indústria Brasil; Folha de S.Paulo, “BNDES desembolsa maior valor para crédito no 1º semestre desde governo Dilma”, 21 de agosto de 2026.

Materiais relacionados

Lei do Bem: o maior incentivo à inovação do Brasil é usado por menos de 2% das empresas elegíveis

A Lei do Bem (Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005) pode reduzir significativamente o custo da inovação, [...]

Energia limpa não é vantagem econômica automática: o que a ciência diz sobre transformar potencial em competitividade

O Brasil ocupa a sétima posição mundial em capacidade elétrica instalada. Não é um dado que costuma virar manchete. Mais [...]

Indústria brasileira mostra resiliência: o que isso significa para quem investe em inovação

Enquanto boa parte do debate econômico se concentra em juros, desaceleração e cautela nos investimentos, alguns indicadores da indústria brasileira [...]

Inovar mais ou inovar melhor? O desafio de escolher onde investir

Em um cenário de rápidas mudanças tecnológicas, o desafio das empresas já não é apenas encontrar oportunidades para inovar. É [...]