O setor privado assumiu a dianteira nos investimentos nacionais em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). As empresas já respondem por 52,5% do total, superando a participação do setor público e consolidando um novo protagonismo na dinâmica da inovação brasileira.

Esse avanço ajuda a explicar a relevância crescente da Lei do Bem. Ao completar duas décadas, o principal incentivo fiscal à inovação do país concentra 46,9% de todo o investimento empresarial em P&D no Brasil, um indicador que revela não apenas a força do instrumento, mas também a maturidade das empresas que passaram a tratar inovação como estratégia de crescimento.
Durante décadas, a produção de conhecimento científico e tecnológico esteve fortemente concentrada em universidades e instituições públicas de pesquisa. Hoje, o cenário é diferente: as empresas assumem papel cada vez mais relevante na geração de tecnologias, no desenvolvimento de novos produtos e na criação de soluções capazes de aumentar a competitividade da economia nacional.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Ela resulta da consolidação de uma cultura de inovação mais madura, do aumento da pressão competitiva em mercados globais e da evolução de instrumentos públicos de incentivo que ajudaram a reduzir riscos e ampliar a capacidade de investimento das organizações.
Entre esses instrumentos, a Lei do Bem se destaca como um dos principais mecanismos de estímulo à inovação empresarial no país. Os números de seus 20 anos revelam não apenas sua relevância para as empresas que utilizam o benefício, mas também seu papel na construção de um ecossistema de inovação mais robusto e estratégico para o desenvolvimento econômico brasileiro.
A maturidade da inovação empresarial no Brasil
A inovação deixou de ser uma iniciativa isolada de algumas grandes organizações para se tornar uma agenda estratégica em diferentes setores da economia.
Nos últimos anos, empresas brasileiras passaram a incorporar atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) de forma mais estruturada em seus modelos de negócio. Em um ambiente marcado pela transformação digital, pela aceleração tecnológica e pela necessidade constante de ganhos de eficiência, investir em inovação tornou-se uma condição para manter competitividade e relevância de mercado.
Os dados mostram a dimensão dessa evolução. Atualmente, as empresas são responsáveis por 52,5% de todo o investimento nacional em P&D, consolidando-se como o principal agente financiador da inovação no Brasil.
Mais do que um aumento absoluto de recursos, o movimento revela uma mudança de mentalidade. A pesquisa aplicada passou a ser vista como um ativo estratégico capaz de gerar diferenciação competitiva, ampliar margens, desenvolver novos mercados e aumentar a produtividade.
Essa evolução também pode ser observada no ritmo de crescimento dos investimentos. Entre 2014 e 2024, os investimentos empresariais em atividades de pesquisa e desenvolvimento apresentaram crescimento médio de 19,4%, demonstrando que a inovação vem ganhando espaço mesmo em períodos marcados por instabilidades econômicas e desafios estruturais.
A trajetória acompanha uma tendência observada nas economias mais desenvolvidas. Países com maior capacidade de inovação costumam apresentar forte protagonismo empresarial no financiamento de pesquisa aplicada, transformando conhecimento em produtos, processos e modelos de negócio capazes de gerar valor econômico.
No Brasil, esse processo ainda está em construção, mas os indicadores apontam para uma evolução consistente. O crescimento da participação empresarial nos investimentos em P&D demonstra que a inovação deixou de ser tratada apenas como um tema ligado à tecnologia e passou a integrar as estratégias corporativas de crescimento, expansão e sustentabilidade dos negócios.
O peso da Lei do Bem nessa transformação
Embora diversos fatores tenham contribuído para a expansão da inovação empresarial brasileira, poucos instrumentos tiveram impacto tão relevante quanto a Lei do Bem.
Criada em 2005, a legislação surgiu com o objetivo de estimular empresas a investirem em pesquisa, desenvolvimento e inovação por meio de incentivos fiscais. Na prática, o mecanismo reduz parte do custo associado às atividades de PD&I, permitindo que mais recursos sejam direcionados para projetos tecnológicos, desenvolvimento de produtos e aprimoramento de processos.
Ao longo de duas décadas, a Lei do Bem se consolidou como um dos pilares da política nacional de inovação.
Os números reunidos no livro Lei do Bem: Duas Décadas de Fomento à Inovação no Brasil demonstram a dimensão desse impacto.
Entre 2006 e 2024, as empresas participantes movimentaram aproximadamente R$ 296 bilhões em investimentos em inovação. Somente em 2024, foram registrados R$ 51,6 bilhões investidos em atividades de PD&I, evidenciando o crescimento contínuo do instrumento e sua relevância para o ambiente empresarial.
O alcance também chama atenção. Em 2024, a Lei do Bem reuniu:
- 4.252 empresas participantes;
- 14.908 projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação;
- 37.672 profissionais envolvidos diretamente nas iniciativas de PD&I.
Os números revelam um ecossistema de inovação cada vez mais estruturado e distribuído entre diferentes segmentos econômicos.
Mas talvez o indicador mais emblemático seja aquele que demonstra o peso efetivo da Lei do Bem dentro da inovação empresarial brasileira.
Atualmente, 46,9% de todo o investimento empresarial em P&D realizado no país está concentrado em empresas que utilizam a Lei do Bem.
O dado evidencia que o incentivo deixou de ser um mecanismo acessório para se tornar um componente central da estratégia de inovação de uma parcela significativa das organizações brasileiras.
Isso não significa que a Lei do Bem seja a única responsável pelo crescimento dos investimentos em inovação. No entanto, sua capacidade de reduzir custos, aumentar previsibilidade e melhorar o retorno dos investimentos contribuiu para acelerar a adoção de práticas de pesquisa e desenvolvimento em larga escala.
Ao longo dos últimos anos, a legislação também ajudou a fortalecer estruturas internas de inovação, estimular a formação de equipes especializadas e ampliar a capacidade das empresas de executar projetos tecnológicos de maior complexidade.
Em um ambiente de crescente competição global, essa capacidade de transformar conhecimento em inovação aplicada tornou-se um diferencial estratégico cada vez mais relevante.
O desafio da próxima década
Se os últimos vinte anos foram marcados pela expansão dos investimentos empresariais em inovação, a próxima década será definida pela capacidade de transformar esses investimentos em ganhos concretos de produtividade, competitividade e crescimento econômico.
Embora os resultados da Lei do Bem sejam expressivos, ainda existe um potencial significativo de ampliação do acesso aos instrumentos de fomento disponíveis no país. Muitas empresas que realizam atividades de inovação ainda não utilizam mecanismos de incentivo ou desconhecem as oportunidades existentes para financiar seus projetos.
Nesse contexto, a integração entre diferentes instrumentos torna-se cada vez mais importante.
A combinação de incentivos fiscais, linhas de financiamento e programas de desenvolvimento industrial pode ampliar a capacidade das empresas de executar projetos estratégicos, acelerar ciclos de inovação e reduzir barreiras de investimento.
Além da Lei do Bem, iniciativas como os programas da Finep, as linhas de crédito do BNDES e as diretrizes estabelecidas pela Nova Indústria Brasil (NIB) compõem um conjunto de ferramentas capazes de fortalecer a competitividade da indústria nacional e impulsionar projetos de transformação tecnológica em larga escala.
Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de conectar inovação à estratégia corporativa.
Empresas mais maduras já não tratam inovação apenas como uma área funcional ou um centro de custos. Ela passa a ser incorporada aos planos de crescimento, às agendas de produtividade, à expansão internacional e à construção de vantagens competitivas sustentáveis.
Nesse cenário, o sucesso não será medido apenas pelo volume investido, mas pela capacidade de converter pesquisa e desenvolvimento em resultados concretos para os negócios e para a economia.
Uma transformação estrutural em curso
Os números acumulados ao longo dos vinte anos da Lei do Bem revelam uma mudança estrutural na economia brasileira.
O crescimento da participação das empresas nos investimentos nacionais em P&D, a expansão contínua dos recursos destinados à inovação e a consolidação de mecanismos de incentivo demonstram que a inovação empresarial deixou de ocupar uma posição periférica e passou a integrar o núcleo das estratégias de crescimento das organizações.
Mais do que um instrumento fiscal, a Lei do Bem tornou-se um indicador da maturidade do ambiente de inovação brasileiro e da crescente capacidade das empresas de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico.
Como destaca André Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, “os números mostram que o desafio já não é convencer as empresas a investir em inovação. O próximo passo é transformar esse investimento em ganhos consistentes de produtividade, competitividade e crescimento sustentável.”
A próxima etapa dessa trajetória dependerá da capacidade de ampliar o acesso aos instrumentos de fomento, fortalecer a integração entre políticas públicas e estratégia empresarial e acelerar a transformação dos investimentos em resultados tangíveis.
Nesse contexto, a atuação especializada na estruturação de projetos de inovação, no acesso à Lei do Bem, em financiamentos da Finep e do BNDES, bem como em estratégias de funding para crescimento empresarial, torna-se um elemento importante para que as organizações aproveitem plenamente as oportunidades disponíveis e convertam inovação em vantagem competitiva de longo prazo.