Tendências da Lei do Bem para 2026: o que muda na prática e como as empresas podem se preparar

Com R$ 296 bilhões mobilizados entre 2006 e 2024, a Lei do Bem entra em 2026 mais relevante do que nunca, mas com exigência crescente de governança, rastreabilidade e alinhamento estratégico. Entenda as principais tendências apontadas pelo MCTI para os próximos anos e como transformar compliance em vantagem competitiva.

A Lei do Bem chega a 2026 vivendo um paradoxo positivo: ao mesmo tempo em que se consolida como o principal instrumento de incentivo à inovação no Brasil, também entra em uma fase de maior sofisticação — técnica, regulatória e estratégica. O próprio balanço consolidado do MCTI mostra a dimensão desse impacto: R$ 296,1 bilhões em investimentos em PD&I entre 2006 e 2024, com renúncia fiscal estimada em R$ 64,1 bilhões, resultando em R$ 232 bilhões líquidos aplicados em inovação.

Mas o crescimento numérico vem acompanhado de outra realidade: com mais empresas utilizando o instrumento e com a inovação ganhando centralidade na política industrial do país, o nível de exigência do processo, sobretudo na documentação e na comprovação dos projetos, tende a aumentar. E isso não é necessariamente um obstáculo. É uma tendência que pode transformar a Lei do Bem em um “selo” ainda mais forte de maturidade inovadora.

A seguir, listamos as principais tendências da Lei do Bem para 2026 e como as empresas podem se preparar para navegar esse cenário com segurança.

1) Mais governança, rastreabilidade e previsibilidade no processo

Uma das tendências mais claras para 2026 é a consolidação de um modelo de governança mais estruturado para análise técnica e acompanhamento do benefício.

O livro dos 20 anos da Lei do Bem do MCTI reforça que a prestação de contas exige que as empresas beneficiárias demonstrem, com clareza, a relação entre dispêndios e atividades de PD&I, sendo a avaliação conduzida pela SETEC/MCTI com apoio de especialistas ad hoc e envio dos resultados consolidados para a Receita Federal após as etapas recursais.

Ou seja: 2026 tende a ser um ano em que “ter projeto” não basta — é preciso ter histórico técnico e contábil bem amarrado, com consistência narrativa e evidências.

Na prática, o que isso significa?

  • documentação mais robusta desde o início do projeto
  • trilhas claras de metodologia, risco tecnológico e resultados
  • alinhamento entre inovação, contabilidade e estratégia
  • preparação para responder diligências e aprofundamentos sem retrabalho

2) Qualidade da descrição técnica vira diferencial competitivo

Se em anos anteriores muitas empresas viam a Lei do Bem como um “relatório anual”, a tendência é que, em 2026, ela seja tratada como um instrumento que exige qualidade técnica comparável à de projetos estruturados para fomento.

O próprio MCTI aponta que causas recorrentes de desclassificação de projetos passam por: ausência de caráter de PD&I, falta de evidências dos desafios tecnológicos, e descrições insuficientes de metodologia e resultados.

Isso reforça uma mudança prática no jogo:

✅ empresas com bom trabalho técnico + documentação coerente → mais segurança
⚠️ empresas com “projeto bom, mas mal contado” → mais risco

3) Digitalização e modernização: fim da improvisação

O MCTI descreve avanços importantes na modernização da gestão e do envio de informações, citando inclusive a atualização e fortalecimento de plataformas, com base de dados mais robusta e segura para comparar projetos.

Na prática, a tendência para 2026 é que o processo caminhe ainda mais para:

  • padronização das informações
  • rastreabilidade por projeto e por dispêndio
  • cruzamentos mais inteligentes entre bases e históricos

Resultado: empresas que operam com controle “na última hora” tendem a sentir mais pressão. Já empresas com governança contínua transformam compliance em eficiência.

4) Inclusão e expansão: PMEs e outras regiões no radar

Um ponto muito forte do livro é a percepção de que a Lei do Bem precisa ampliar capilaridade, sobretudo para reduzir assimetrias e incluir mais empresas, regiões e atores do ecossistema.

O prefácio assinado pela ministra Luciana Santos aponta explicitamente que a modernização deve avançar para ampliar participação de empresas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e também de micro e pequenas empresas, além de promover uma inovação mais inclusiva e sustentável.

Isso conversa diretamente com uma tendência para 2026:
📌 a Lei do Bem como instrumento não apenas fiscal, mas também de política pública estratégica.

Mesmo que a regra do Lucro Real siga como critério central, a pauta de inclusão vai continuar ganhando espaço no debate técnico e institucional.

5) Alinhamento com agendas estratégicas: NIB, sustentabilidade e “inovação com propósito”

O livro do MCTI reforça que o futuro do instrumento passa por alinhar seus mecanismos a grandes agendas públicas do nosso tempo — como tecnologias verdes, descarbonização, economia circular e inovação de impacto social.

A tendência de 2026, portanto, é que projetos que conectem inovação à estratégia país (e às diretrizes industriais) ganhem ainda mais “força narrativa” e relevância competitiva.

Para André Maieski, sócio da Macke Consultoria, esse movimento muda a lógica do uso do incentivo: o projeto deixa de ser apenas uma escolha interna e passa a ser também um instrumento de posicionamento diante de políticas públicas e outras fontes de fomento.

“Quando a empresa consegue conectar sua estratégia de mercado a uma prioridade nacional, ela não só fortalece o uso da Lei do Bem como também melhora seu posicionamento em outras frentes de fomento. O projeto passa a ser mais defensável tecnicamente, mais estratégico e mais sustentável no longo prazo.”

6) Lei do Bem em números” continua crescendo — e isso eleva o nível de exigência

Os números do MCTI mostram que o ano-base 2024 foi um marco:

  • R$ 51,6 bilhões em investimentos declarados
  • renúncia fiscal estimada de R$ 12 bilhões (maior valor nominal em duas décadas)
  • 4.252 empresas beneficiadas
  • 14.908 projetos

Esse crescimento tende a gerar um efeito natural: conforme o volume aumenta, a política se torna ainda mais relevante para o Estado — e o processo tende a evoluir para garantir credibilidade, transparência e segurança.

Em 2026, isso se traduz em uma tendência objetiva:
📌 mais maturidade do instrumento = mais exigência técnica e documental

A consultoria como ponte entre inovação, conformidade e estratégia
Com a Lei do Bem avançando para um modelo mais técnico, digital e orientado por evidências, cresce também a necessidade de integrar áreas que nem sempre “falam a mesma língua” dentro das empresas: times de inovação, engenharia, controladoria, fiscal, jurídico e alta liderança. É nesse ponto que o apoio de uma consultoria especializada deixa de ser apenas operacional e passa a ser estratégico. Ao orientar a empresa na interpretação dos critérios do MCTI e na estruturação de uma documentação técnica consistente, o trabalho consultivo contribui para organizar a narrativa dos projetos, fortalecer a rastreabilidade dos dispêndios e preparar a companhia para responder com mais segurança a diligências e análises aprofundadas. Em 2026, a vantagem competitiva não estará apenas em inovar, mas em conseguir comprovar essa inovação com método, consistência e governança.

Brendo Ribas, sócio da Macke Consultoria, reforça que o futuro da Lei do Bem está menos no “volume declarado” e mais na capacidade da empresa de sustentar tecnicamente o valor gerado pela sua inovação:

“A Lei do Bem está evoluindo. E, com isso, a empresa precisa evoluir junto: não basta dizer que investe em P&D, é preciso provar método, risco, evidência e resultado. As empresas que estruturarem governança e documentação como rotina vão ter mais segurança, menos retrabalho e maior poder de crescimento no uso do incentivo.”

O próximo ciclo da Lei do Bem será decidido por quem estiver mais preparado

A Lei do Bem entra em 2026 com tudo: mais relevância, mais volume de investimentos e maior integração com estratégias nacionais de reindustrialização e inovação. O que muda, de forma silenciosa porém decisiva, é o “nível do jogo”: a inovação precisará ser comprovada com mais consistência, e a governança deixará de ser apenas um requisito — para virar vantagem competitiva.

O momento é agora: empresas que estruturarem desde já seus projetos, evidências e governança vão chegar em 2026 com mais previsibilidade, mais segurança e mais capacidade de transformar incentivo fiscal em crescimento real.

Materiais relacionados

Transparência e escala: o que a nova plataforma do BNDES revela sobre o avanço do Mais Inovação

Com R$ 21,95 bilhões já aprovados em crédito, o BNDES dá um passo decisivo ao lançar uma plataforma pública de [...]

Maximizando o Retorno sobre Investimento (ROI) em P&D com a Lei do Bem

A Lei do Bem não é apenas um incentivo fiscal, mas uma ferramenta estratégica para otimizar a estrutura de capital. [...]

Economia Circular e a Lei do Bem: Uma combinação estratégica para o futuro

Inovar para reduzir resíduos, reutilizar materiais e regenerar ecossistemas não é apenas uma demanda do planeta, mas uma grande oportunidade [...]

A importância da governança e transparência em projetos de inovação

Para garantir o benefício da Lei do Bem e atrair novos investimentos, não basta inovar. É preciso gerenciar a inovação [...]