Em um ponto de inflexão histórico, a indústria brasileira precisa abraçar a inovação tecnológica e a sustentabilidade para reverter décadas de desindustrialização precoce. A agenda da neoindustrialização, apoiada por políticas de incentivo, é o caminho para fortalecer a competitividade e a soberania do país no cenário global.

O Brasil se encontra em uma encruzilhada econômica. Por décadas, o país assistiu a um processo de desindustrialização que, ao contrário do ocorrido em nações desenvolvidas, se manifestou de forma prematura e desordenada. Um estudo aprofundado do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP (Nereus) lança luz sobre a gravidade do cenário: setores de alta e média-alta tecnologia, como o automotivo, metalúrgico, químico e de máquinas e equipamentos, atingiram seu pico de geração de empregos quando o Brasil possuía um PIB per capita que representava, em alguns casos, apenas 20% do padrão observado em economias avançadas. Essa interrupção precoce do desenvolvimento industrial não apenas freou o crescimento econômico, mas deixou um legado de baixa complexidade produtiva e enfraqueceu severamente o ecossistema de inovação nacional.
Essa dinâmica resultou em uma perda significativa da participação da indústria no PIB, que encolheu de forma constante nas últimas décadas. A consequência direta foi a substituição de empregos qualificados em engenharia e tecnologia por vagas em setores de menor valor agregado, comprometendo o potencial de crescimento de longo prazo do país. No entanto, o cenário recente aponta para uma possível virada. Entre 2019 e 2023, a indústria brasileira demonstrou resiliência ao criar mais de 910 mil novas vagas de emprego, um crescimento de 12% que sinaliza uma recuperação gradual, ainda que tímida.
“Os números mostram que há uma capacidade de reação, mas a desindustrialização em setores de ponta deixou cicatrizes profundas. O efeito cascata comprometeu a capacidade de pesquisa, a retenção de talentos e a geração de propriedade intelectual”, afirma André Maieski, sócio da Macke Consultoria. “Reverter esse quadro exige mais do que medidas paliativas; demanda uma estratégia nacional robusta, focada em adensar as cadeias produtivas e fortalecer a soberania tecnológica. A inovação deixou de ser um diferencial para se tornar uma condição de sobrevivência. As empresas que não investirem em P&D de forma contínua e estratégica correm o risco de se tornarem irrelevantes em um mercado global cada vez mais competitivo.”
O caminho para a revitalização industrial, conhecido como neoindustrialização, não propõe um retorno a modelos produtivos do passado, mas sim um salto qualitativo em direção ao futuro. A solução passa por abraçar as novas fronteiras da competitividade, como a transição energética, a transformação digital e a bioeconomia. Essas áreas representam oportunidades únicas para o Brasil alavancar suas vantagens comparativas e se inserir de forma competitiva nas cadeias globais de valor.
“A neoindustrialização é sobre inteligência, não sobre nostalgia. Trata-se de usar tecnologias disruptivas para criar uma indústria mais verde, mais eficiente e mais conectada”, destaca Angelita Nepel, sócia da Macke Consultoria. “Vemos um movimento claro de empresas que buscam desenvolver soluções sustentáveis, não apenas por uma questão de imagem, mas como um pilar de sua estratégia de negócios. Projetos de eficiência energética, desenvolvimento de biocombustíveis e materiais de base biológica estão na vanguarda dessa transformação. Essas empresas entendem que a sustentabilidade não é um custo, mas um investimento que gera valor, abre novos mercados e atrai talentos.”
Reconhecendo a urgência dessa agenda, o governo brasileiro lançou o programa Nova Indústria Brasil (NIB), uma política industrial arrojada que visa estimular o desenvolvimento produtivo e tecnológico por meio de seis missões estratégicas. Com um aporte inicial de R$ 300 bilhões em financiamentos até 2026, o programa busca fortalecer a capacidade inovadora das empresas e ampliar sua competitividade. A meta é ambiciosa: transformar digitalmente 90% das empresas industriais brasileiras e elevar significativamente os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que hoje representam apenas 1,19% do PIB, um patamar consideravelmente inferior ao de nações líderes em inovação.
Para Rosana Nishi, sócia da Macke Consultoria, o sucesso da NIB depende de um alinhamento fino entre o setor público e a iniciativa privada. “Os instrumentos de fomento, como a Lei do Bem e as linhas de crédito do BNDES e da Finep, são cruciais, mas sua eficácia está diretamente ligada à acessibilidade e à desburocratização. O papel de uma consultoria especializada é construir essa ponte, traduzindo a complexidade regulatória em oportunidades concretas. Observamos um interesse crescente em projetos alinhados às missões da NIB, especialmente em descarbonização e digitalização, o que demonstra uma mudança de mentalidade e uma aposta no futuro.”
O caminho para a reindustrialização do Brasil é complexo e multifacetado, exigindo um esforço coordenado entre governo, setor produtivo, academia и sociedade. A inovação, contudo, emerge como o principal vetor dessa transformação. Ao investir de forma estratégica em tecnologia, capacitação de mão de obra e práticas sustentáveis, a indústria nacional pode não apenas reverter o processo de desindustrialização, mas também se consolidar como uma força competitiva, resiliente e relevante na economia global do século 21.
“O futuro da indústria brasileira está sendo escrito hoje, nos laboratórios de P&D, nas linhas de produção automatizadas e nas estratégias de sustentabilidade das empresas”, conclui Brendo Ribas, sócio da Macke Consultoria. “O Brasil possui o talento, os recursos e a criatividade necessários para liderar em diversas áreas. O grande desafio é transformar esse imenso potencial em resultados tangíveis, gerando valor para as empresas, empregos de qualidade para os trabalhadores e prosperidade para a sociedade. Com a estratégia correta e os parceiros adequados, o Brasil pode e vai superar os desafios da desindustrialização, inaugurando um novo ciclo de crescimento.”