
O Brasil ocupa a sétima posição mundial em capacidade elétrica instalada. Não é um dado que costuma virar manchete. Mais surpreendente é o que vem logo depois: entre os maiores sistemas elétricos do planeta, o país se destaca pela elevada participação de fontes renováveis na geração de eletricidade.
A combinação chama atenção porque revela duas disputas diferentes. Uma é sobre escala, no qual China e Estados Unidos estão muito à frente. A outra é sobre a participação de renováveis na geração elétrica, e nesse ponto o Brasil ocupa uma posição singular mesmo diante de economias muito mais ricas.
A pergunta é simples de fazer e ao mesmo tempo difícil de responder: estamos transformando essa vantagem energética em vantagem econômica real?
O que a ciência diz sobre essa transição
Um artigo publicado na Nature Reviews Clean Technology ajuda a organizar essa pergunta. Os autores apresentam três cenários possíveis para o futuro da produção industrial baseada em hidrogênio renovável: troca de combustível, produção dispersa e relocação industrial.
No primeiro, o hidrogênio renovável substitui combustíveis fósseis, mas a geografia da indústria permanece essencialmente a mesma. Os grandes polos industriais continuam concentrados nos centros atuais.
No segundo, chamado de produção dispersa, partes intermediárias das cadeias produtivas migram para regiões com recursos renováveis abundantes. Etapas como a produção de amônia e a redução direta do minério de ferro podem se aproximar das fontes de energia renovável, enquanto o processamento avançado e a manufatura final permanecem nos centros industriais já estabelecidos.
No terceiro, o mais disruptivo, ocorre uma relocação mais ampla da própria indústria para regiões capazes de oferecer energia renovável abundante e de baixo custo. Os autores identificam oportunidades para países como Brasil, Marrocos e África do Sul nesse cenário.
Mas o estudo deixa claro que esse movimento não depende apenas da disponibilidade de energia. Condições de investimento, capacidades industriais existentes, infraestrutura, mão de obra qualificada, política industrial e instituições influenciam diretamente quais países conseguem atrair atividades produtivas e capturar o valor econômico dessa transformação. Mesmo em regiões ricas em recursos renováveis, o surgimento de exportações competitivas de aço descarbonizado e produtos químicos baseados em hidrogênio permanece incerto.
Ter o recurso natural, portanto, não significa automaticamente capturar o valor econômico gerado por ele.
Quando a política de transição energética cria novas barreiras
Um segundo estudo, publicado na Humanities and Social Sciences Communications, oferece um alerta sobre como o desenho da transição pode produzir efeitos inesperados.
Os pesquisadores analisaram o programa chinês de Cidades de Demonstração de Nova Energia, criado para acelerar a mudança da estrutura energética e ampliar o uso de fontes limpas. Utilizando dados de registro empresarial, o estudo estima que a política provocou uma redução média de aproximadamente 7,7% na entrada de novas empresas nas cidades participantes.
O problema não foi a disponibilidade de energia limpa. Os pesquisadores identificaram três mecanismos principais: aumento das barreiras tecnológicas, mudanças na alocação de recursos e maior complexidade regulatória ambiental. Exigências mais elevadas de inovação e conformidade aumentaram custos e dificultaram principalmente a entrada de empresas com menos recursos.
O impacto também não foi igual para todos. A queda na entrada de empresas foi mais evidente entre negócios pequenos, não estatais, de menor intensidade tecnológica e do setor terciário. Ao mesmo tempo, empresas com maior capacidade financeira e tecnológica mostraram-se mais aptas a absorver os custos associados ao novo ambiente regulatório.
O resultado traz uma lição importante: políticas de transição energética não afetam apenas o ritmo da transformação. Elas também influenciam quem consegue participar dela.
Se os custos iniciais, exigências técnicas e barreiras de financiamento forem elevados demais, empresas menores podem encontrar mais dificuldade para entrar nesse novo mercado.
O papel do capital humano na transição
Um terceiro estudo, também publicado na Humanities and Social Sciences Communications, ajuda a ampliar essa discussão ao investigar a relação entre capital humano e sustentabilidade ambiental.
Os pesquisadores analisaram nove países com elevados níveis de capital humano, entre eles Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Suécia, Suíça e Austrália, utilizando dados entre 2000 e 2021. O estudo considera capital humano a partir de dimensões relacionadas a educação, saúde e competências.
Os resultados indicam que níveis mais elevados de capital humano estão associados a melhorias significativas na qualidade ambiental. Esse efeito aparece de forma especialmente intensa nos quantis mais baixos do indicador utilizado pelos pesquisadores. O estudo também identifica efeitos positivos do consumo de energia renovável sobre a sustentabilidade ambiental.
O recorte da pesquisa não permite extrapolar diretamente seus resultados para o Brasil. Ainda assim, ele reforça um elemento importante da transição: disponibilidade de recursos e tecnologia precisa ser acompanhada por capacidade humana para que os benefícios ambientais e produtivos possam ser sustentados no longo prazo.
Os próprios autores destacam a importância de estratégias coordenadas que fortaleçam educação, sistemas de saúde e crescimento verde.
Quando esse resultado é colocado ao lado do estudo sobre hidrogênio renovável, a conexão se torna ainda mais relevante. O artigo da Nature Reviews Clean Technology também aponta mão de obra qualificada, capacidades tecnológicas, infraestrutura e investimentos em pesquisa e desenvolvimento como fatores capazes de influenciar a localização dos investimentos industriais.
O que isso significa para a indústria brasileira
Lidos em conjunto, os três estudos ajudam a construir uma leitura estratégica para o Brasil.
O país possui recursos renováveis abundantes e potencial para produzir energia e hidrogênio renovável em condições competitivas. Mas o desafio está em construir a arquitetura capaz de transformar esse potencial em atividade industrial de maior valor agregado.
Isso envolve política industrial coordenada, condições favoráveis de investimento, infraestrutura, acesso a financiamento, desenvolvimento tecnológico e formação de capital humano.
Para André Moro Maieski, sócio-fundador da Macke Consultoria, esse é justamente o tipo de contexto em que clareza estratégica pode fazer a diferença entre aproveitar uma janela histórica e perder espaço para outros mercados.
“O Brasil está numa posição rara: tem o recurso que o mundo inteiro está buscando. Mas recurso não é estratégia. As empresas que vão se beneficiar de verdade dessa vantagem energética são as que já estão se organizando para isso, mapeando onde a energia limpa pode virar produto, processo ou vantagem competitiva, em vez de esperar que o mercado resolva sozinho.”
O estudo sobre a política chinesa também oferece uma lição relevante para o desenho dos instrumentos de apoio à transição. Os próprios autores defendem medidas capazes de reduzir custos iniciais de conformidade e diminuir barreiras enfrentadas principalmente por empresas pequenas e não estatais.
Segundo Brendo Diogo Ribas, sócio da Macke Consultoria, essa discussão ajuda a entender o papel dos instrumentos de fomento no contexto brasileiro:
“Para grandes empresas, a questão não é simplesmente ter acesso à energia limpa, mas entender como incorporá-la à estratégia de investimento e inovação. Projetos de descarbonização envolvem tecnologia, capital e risco. Quando instrumentos como Finep, BNDES e Lei do Bem são utilizados de forma coordenada, eles podem melhorar a viabilidade econômica desses projetos e acelerar decisões que talvez demorassem mais para sair do papel”
Para Angelita Nepel, sócia da Macke Consultoria e doutora em Ciências, os estudos também reforçam a importância das capacidades humanas e tecnológicas nesse processo.
“Energia limpa abundante não se converte automaticamente em resultado. A literatura mostra que capital humano, capacidade tecnológica e condições institucionais são parte importante dessa equação. Pessoas qualificadas, pesquisa aplicada e maturidade tecnológica ajudam a determinar quanto valor um país consegue capturar de seus recursos. Isso reforça por que investir em capacitação e PD&I não é um complemento à estratégia energética do Brasil, mas parte central dela.”
A vantagem existe. A pergunta é o que fazemos com ela
O Brasil não precisa de mais um debate sobre se possui ou não potencial energético. Os números já mostram que o país parte de uma posição diferenciada.
A pergunta relevante é outra: que combinação de política, financiamento, tecnologia e capacitação permitirá transformar esse potencial em indústria, emprego e competitividade de longo prazo?
Lidos em conjunto, os estudos apontam para uma conclusão relevante: a disponibilidade de energia limpa, por si só, não determina quem captura os benefícios econômicos e ambientais da transição.
Os resultados dependem de escolhas sobre política industrial, condições de investimento, desenho de instrumentos, capacidade institucional e desenvolvimento de capital humano.
A vantagem energética existe. Transformá-la em vantagem econômica exige estratégia.
Como a Macke pode apoiar essa jornada
Na Macke Consultoria, ajudamos empresas a transformar potencial tecnológico e ambiental em projetos estruturados de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), conectando estratégia de negócio aos instrumentos de fomento, financiamento e incentivos fiscais mais adequados a cada momento, como Lei do Bem, Finep, BNDES e outros mecanismos de apoio à inovação.
Fontes científicas
Eicke, L. et al. Geoeconomic scenarios of renewable-hydrogen-based industrial production. Nature Reviews Clean Technology, 2026.
Liu, Y., Yu, X., Meng, X. The impact of energy governance on firm entry: evidence from new energy demonstration cities in China. Humanities and Social Sciences Communications, 2026.
Yildirim, K., Haciimamoglu, T. Building a sustainable future: insights from the relationship between human capital and environmental sustainability in the framework of load capacity curve hypothesis. Humanities and Social Sciences Communications, 2026.
Dados do setor elétrico: EIA, Ember e EPE, ano-base 2024.